20 de mar de 2009

Heath Ledger: o Coringa do Xadrez


The Queen's Gambit
Walter Tevis (The Man who Fell to Earth, The Hustler e The Color of Money)
1983

The Queen's Gambit (ainda não tem tradução em português) trata da história de uma garota americana, órfã, que aprende a jogar xadrez, e, lutando contra todos os preconceitos, vai galgando todos os estágios de excelência no jogo, até chegar ao Olimpo, que é o patamar em que se encontram os Grandes Mestres soviéticos.

Aparece inclusive um forte grande mestre brasileiro, que, no entanto, está longe de ser um grande entre os grandes. O embate final, na decisão do torneio entre ela e o russo, campeão mundial, é o momento culminante do livro.

O romance, porém, é muito sobre os relacionamentos (ou falta de) da personagem. Por um lado ela adquire independência financeira com as vitórias nos torneios abertos. Por outro, a dificuldade em encontrar amigos ou companhias que partilhem da mesma paixão pelo jogo.

Junto a isso, a descoberta de jogadores de um nível muito mais alto - os jogadores da escola soviética de xadrez - do que ela costumava até então enfrentar. O primeiro contato com o russo, então campeão mundial, é, para dizer o mínimo, extremamente instrutivo.

Lembremos que até meados de 1980 o xadrez soviético dominava completamente o mundo. Aí então ela descobre que só o talento não é suficiente. Somente estudo sério e prolongado pode dar-lhe alguma chance de jogar de igual para igual com essa gente.

Ela consegue realizar essa etapa com a ajuda do jovem campeão americano (antes dela) que ao mesmo tempo torna-se seu melhor amigo e amante. Não namorado.

Outro aspecto bem interessante do livro é a sua (dela) luta contra as drogas (os tranquilizantes e a bebida).

Em alguns momentos, a descrição das partidas durante os torneios torna-se empolgante, mesmo para quem não joga xadrez. A forma como o autor descreve seus pensamentos, durante as partidas, de como ela supera alguns erros se obrigando a concentrar-se é, para quem já passou por isso, um deleite.

Infelizmente o livro ainda não tem tradução em português (olha aí, Garcez!) e portanto vai ficar restrito a quem dominar o inglês, a menos que...

A menos que o cinema resolva o nosso problema, e aí vêm as coincidências:

Um roteirista , Allan Scott, pseudônimo de Allan Shiach, que adquiriu os direitos do livro em 1992, estava à espera de um diretor que se interessasse em filmá-lo. Até Bernardo Bertolucci mostrou interesse mas, depois de alguns meses, acabou sendo atraído para outros trabalhos.

Então surgiu Heath Ledger. Para quem não se lembra, ele foi um dos cowboys de Brokeback Montain. Se ainda não deu pra refrescar a memória, ele foi o Coringa no último Batman (The Dark Knight), que lhe deu um Oscar póstumo. Em 2007 e 2008 Allan e Ledger estavam trabalhando juntos no que iria ser a estréia de Ledger como diretor.

Para fazer Beth Harmon, a menina prodígio, ninguém menos que a nova estrela Ellen Page (Juno). Ledger, segundo consta, havia sido um forte jogador e tinha planos de tornar-se Grande Mestre (entretanto não consegui encontrar nos arquivos da FIDE nenhum jogador com esse nome e perfil). Isso já explicaria o seu entusiasmo.

Infelizmente, assim como a personagem do livro, Ledger também era viciado em drogas com receita médica, porém, ao contrário daquela, não escapou com vida após uma combinação de drogas e álcool.

Agora temos que esperar a poeira assentar até que The Queen's Gambit seja finalmente transposto para o cinema.

3 comentários:

joca disse...

Parabéns Silvio pelo ótimo blog!
Como você, também gosto muito de cinema e se você ainda não viu, não perca "O Leitor" e "Milk", exclentes!
Quanto ao ótimo Ledger, pelo que li ele não era "viciado em drogas com receita médica". Ele simplesmente abusou na dose diária de tranquilizantes que tomava para dormir.
Grande abraço e nos vemos em Curitiba neste final de semana?

sucesso!

joaquim

José disse...

Li este livro e achei muito interessante. Vc indicaria outros no mesmo estilo?

Silvio Cunha Pereira disse...

Obrigado Joaquim. E parabéns pelos reultados nos ultimos torneios. Eu já tinha visto tanto o leitor quanto Milk que sào dois bons filmes. Tranquilizantes tambem são drogas.

Como vai José,
os romances que eu conheço (e já li) ligados ao xadrez sào "A maquina de xadrez" que eu já comentei aqui em um post e "A defesa" (The Luhzin defense)de Vladimir Nabokov, um livro bem sombrio escrito por quem conhece o ambiente de xadrez e um dos maiores escritores do sec XX. O livro gerou um filme do mesmo nome e nào tão bom.