Depois
de um longo e tenebroso inverno eu resolvi reativar este blog,
atendendo, principalmente, a um (vários) pedidos (pedidos? haha!) da
Lolinha, minha esposa, que não entendia o motivo da infindável
hibernação. Como alguns devem saber ela é a responsável pelo blog Escreva Lola Escreva, o maior blog feminista do Brasil. Para reiniciar, ela sugeriu um post que eu fiz recentemente para o seu blog, falando sobre xadrez sob uma perspectiva de gênero. Essa é a minha visão sobre o tema, construída ao longo de quase 50 anos vivendo como jogador, treinador, técnico e estudioso de xadrez. A partir de agora, pretendo fazer pelo menos um post semanal aqui no blog.

O
jogo de xadrez, entretanto, apesar de dominado pelo sexo masculino
(rei, bispos, cavaleiros, soldados/ peões), é comandado não pelo Rei,
que é tratado como alguém muito mais frágil do que importante, e sim
pela Dama/ Rainha –- esta sim a peça mais poderosa do jogo. Mas nem
sempre foi assim.



Mas
de onde veio a atual força da rainha? Na vida real, quando um rei se
ausentava ou morria, deixava um herdeiro do trono que com frequência era
uma criança.


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Marilyn Yalom, historiadora |
Tanto
Teofânia como Adelaide podem ter sido o modelo para a rainha no xadrez.
Mas foi em 1497 que foi observado no livro de Luis Ramírez de Lucena
sobre o jogo de xadrez que os movimentos das peças já eram idênticos aos
de hoje, com pequenas modificações. No entanto, a grande transformação
no jogo foi o enorme aumento do raio de ação da rainha -– que levou o
jogo a ser chamado de “a dama louca” por aqueles que se opunham a tanto poder feminino.

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O jovem Bobby Fischer e sua irmã Joan |
Nos 300 anos seguintes, o universo do xadrez ficou amplamente dominado pelos homens. Por que isso?
Lógico
que os misóginos (incluindo um dos maiores campeões de todos os tempos,
Bobby Fischer, cuja irmã lhe ensinou a jogar) diziam (e ainda dizem,
como o fez o britânico Nigel Short há dois anos) que os cérebros eram diferentes, ou que mulheres não têm as mesmas capacidades intelectuais.


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"Claro que não", diz o subtítulo |
Quando refizeram o teste, desta vez informando o gênero do adversário, a performance feminina caiu em quase 50%.
Isso
mostra que a capacidade dos dois gêneros para o xadrez é, pelo menos em
média, equivalente, mas que o resultado pode ser afetado se os
jogadores sabem contra quem estão jogando. O principal motivo da
"superioridade" masculina no xadrez é, no entanto, estatístico: há muito
mais homens jogando do que mulheres.


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As fantásticas irmãs Polgar em 2012 |
Sua
irmã, Sofia Polgar, hoje afastada das competições, também rompeu a
barreira masculina ao ter um dos ratings de performance mais fortes na
história (de 2879 pontos aos 14 anos, num torneio em Roma). Sua outra
irmã, Susan Polgar -- as três foram fenômenos do xadrez --, foi a primeira pessoa
a conseguir a coroa tríplice, ao ficar com os títulos mundiais de
xadrez Blitz [jogo que dura apenas 3 minutos para cada jogador, com
acréscimo de 2 segundos por jogada], Rápido [o jogo normalmente dura 15
minutos para cada jogador] e tradicional.



