27 de fev de 2009

Minhas partidas inesquecíveis.(1)


Acho que todo enxadrista tem, guardada cuidadosamente no fundo do baú, uma ou várias partidas fantásticas, que só não saíram no informador porque os caras são muito lerdos. E, finalmente, a gente tem oportunidade de compartilhar essas obras-primas com o resto do mundo.

Um dos pequenos empecilhos são aqueles programinhas estúpidos que em questão de segundos diz que a nossa supercombinação era mais furada que um queijo suíço. Aí é só invocar o São Tal que pregava que seus sacrifícios podiam ter furos mas ele queria ver esses detratores acharem a solução durante a partida, pressionados pelo tempo.

Outro probleminha ocorre quando após realizar uma partida maravilhosa cometemos um errinho de nada que põe tudo a perder e lá se vai nossa obra-prima pro brejo. Isso já foi resolvido muito tempo atrás, no cinema, em que algumas pessoas inconformadas com o final do filme simplesmente refilmaram a sequência da forma que acharam mais correta.

Assim vou inaugurar, neste post, uma série de partidas da minha carreira das quais tenho muito orgulho. Algumas delas, apesar de muito bonitas, têm o tal erro no final (ou no meio). Nesse caso vou postar a versão fictícia, com final feliz, e a partida real mostrando o que realmente aconteceu.

A partida a seguir (lá embaixo no post) foi jogada contra o MI Aleksandr Chantsev em Moscou, no Aeroflot Open em 2004. A ideia de ir jogar na Rússia sempre foi um sonho, mas os primeiros dias (e os que os antecederam) foram um pesadelo. Vou explicar (quem não quiser saber a história, pule direto para a partida):

Em janeiro de 2004 eu e a Lola resolvemos ir jogar o torneio em Moscou pois os preços eram muito convidativos. Porém (eis que surge o porém), o pagamento de todas as despesas (hotel, inscrição e transporte aéreo) tinha que ser feito antecipadamente em um banco na Holanda. Só depois a gente receberia autorização para conseguir o visto de entrada na Rússia.

O torneio ia começar 17 de fevereiro, sábado de manhã, e na terça ainda não tínhamos os vistos. Era um tal de ligar para o organizador às 3 da manhã (7 horas em Moscou) e nada. Já dávamos o dinheiro como perdido quando na quarta feira à uma da tarde recebo um telefonema de Moscou avisando que já podia pegar o visto no consulado russo. Que fica em São Paulo! Liguei pra minha irmã e pedi que fosse buscá-lo pra mim (ela estava com os nossos passaportes). Detalhe: o consulado fechava às 3:00h e só reabria na sexta. Felizmente ela conseguiu. Agora a parte aérea. Íamos viajar pela Air France (patrocinadora do torneio), só que os organizadores esqueceram de fazer as reservas pra gente. Conclusão: não tinha vôo da empresa para Paris (de lá tínhamos que ir para Moscou pela Aeroflot, empresa russa recém adquirida pela Air France).

Ligamos para Moscou e o organizador sugeriu, candidamente, irmos para México ou Cubapegar o vôo para Paris... Avisamos que o valor seria mais caro que a viagem inteira, e que Buenos Aires seria bem mais perto. Ele se comprometeu a pagar as passagens do trecho SC-Buenos Aires e lá fomos nós, ainda mais para o sul. Se continuássemos assim, daríamos a volta ao mundo e quem sabe chegaríamos a Moscou pelo norte, como dois personagens de Júlio Verne.

Felizmente a Lolinha teve duas grandes ideias: pedir à minha irmã que enviasse os passaportes para Joinville, naquela noite, pela Viação Catarinense (e caiu um temporal que alagou SP, só para dificultar um pouco) e fazer a reserva, just in case, em um vôo da Air France partindo de Buenos Aires.

Passamos a noite de quinta-feira na capital portenha e de madrugada recebemos a confirmação, de Moscou, de que o vôo havia sido pago. Sexta de manhã, no aeroporto, foi confirmado que realmente haviam pago mas, como isso foi feito na noite anterior, a reserva tinha sido cancelada.

Felizmente haviam duas vagas no próximo vôo. Até aí, minha vontade era ficar numa Buenos Aires ensolarada por uma semana e depois voltar ao Brasil. Mas agora, finalmente, estava tudo certo. Ledo engano. Em Paris entramos no avião às 6 da tarde e estava a maior confusão. Parece que ainda faltavam dois russos, e um grupo de amigos discutia com toda a tripulação impedindo que a nave levantasse vôo. Ficamos sabendo que havia uma tempestade de neve em Moscou - se o avião não se apressasse, pegaríamos o aeroporto fechado. O torneio ia começar no dia seguinte às 9:00h da manhã.

A discussão (em russo), já com a presença do piloto que parecia que iria ter um ataque, se prolongou por quase uma hora, quando o piloto chamou a polícia do aeroporto. Um batalhão de policiais subiu no avião e foi retirando os passageiros apontados pelo piloto. E finalmente partimos.

Chegamos em Moscou à meia-noite, com o aeroporto praticamente deserto. Tomamos um táxi, que nos assaltou em 100 dólares até o hotel, e no caminho vimos que nossas roupas de frio eram uma piada: 27 graus negativos.

No dia seguinte descobrimos que ou iríamos morrer de frio ou de fome. Minha única vontade era voltar para Buenos Aires. A vida só melhorou quando descobrimos um supermercado não muito longe do hotel (que ficava ao lado da Praça Vermelha e em frente ao rio Moscou - congelado). Talvez isso explique a série de derrotas nas primeiras 5 rodadas e só ter começado a ganhar depois disso. Eram 9 rodadas.

Segue agora minha melhor partida no torneio.

3 comentários:

lola aronovich disse...

Ótima partida, amor! Algum dia eu conto pro pessoal sobre vc tendo um ataque lá em Moscou e querendo ir pra Buenos Aires correndo porque não deixaram a gente comer o café da manhã... Foram dias difíceis lá! A gente passou fome. E frio. Aí, no ano seguinte, lá estava vc de novo: "Vamos pra Moscou?!".

Master disse...

hehe, gostei da história, tambem penso ir jogar um torneio há Russia, mas depois de saber de sua história, vou pensar 2 vezes!

Masegui disse...

Ôpa, eu quero saber dessa história que a Lola falou... conta logo, vai!

Ps.: Bela partida, Mestre!!